quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Nada aconteceu depois daquelas tardes quando os olhos cintilavam o brilho por trás da persiana e o gato arranhava o braço do sofá deixando escapar um ronronar solícito e manhoso.

Nenhum dia foi diferente e nem houve promessa de que seria no decorrer dos próximos anos e próximas vidas talvez.

O acúmulo dos dias seria desimportante e não haveria promessas a serem cumpridas nem partilhar de sonhos dourados em luas crescentes.

Nada de derrubar muralhas, construir castelos e sonhar com beijos de princesa.

O coração pulsaria manso no peito e a rosa ficaria guardada no eterno livro do tempo até que suas pétalas perdessem completamente a cor.

O nevoeiro que cobria as manhãs de inverno entraria pela janela e seria necessário aquecer o corpo e a alma com chá de maçã e canela porque nas mãos não teria outras.

O gato dormiria na manta do sofá da sala e por vezes roçaria em suas pernas pedindo carinho, o pegaria no colo e escutaria seu ronronar como um motorzinho que fica ligado tremulando.

Em dias de sol olharia pela janela para admirar a delicadeza das borboletas que independente e alheias à sua estranha história não se importavam em ser felizes e coloridas.

E seria assim, para todo o sempre.

Lou Witt

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Fraternidade

Braços e abraços
e diante de mim
a solidariedade do mundo.
Quem disse que o amor está em desuso?
Lágrimas compartilhadas
sofrimento repartido.
Quem falou que a dor
não pode ser dividida?
Não quero o exílio interno
quero a fraternidade oferecida.

Lou Witt

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Esperança
Quando finda a tarde o céu tinge-se de vermelho e gris
A vida adormece nas encostas e estepes
e a noite com seu manto negro
cobre uma parcela deste vasto mundo
Calam-se os cantos
Dormem os pássaros
Peixes buscam refúgio
Tudo espera pelo breu da noite que descansa corpos calejados
e esmaga corações aflitos
A noite é soberana e geme saudades em camas vazias
O escuro dói e o vento assovia uma canção de ninar estrelas
E tudo é silêncio e solidão

Mas no romper da aurora quando o dia aponta
Brilha um sol de ouro atrás do horizonte
Vertem córregos
Mares geram pérolas
Nascem margaridas
Brilham violetas lilases
Colibris beijam flores
E a esperança é uma borboleta
de finas asas douradas

Lou Witt

quinta-feira, 23 de setembro de 2010


Vou te contar uma histórinha:

Estava eu um dia no trem da vida, dei um cochilo e sonhei com uma fada que me disse coisas que jamais esquecerei.

Ela me falou que a vida não é feita só de alegrias e que as pessoas sem querer nos fazem sofrer e para viver em paz neste mundo é preciso ser tolerante, sábio e paciente e acima de tudo tem que saber amar.

Disse-me que ninguém é completamente bom nem mau e que devemos sempre buscar o melhor dentro de cada ser humano por mais que isso possa nos parecer difícil algumas vezes.

Confidenciou-me que certa vez jogou um pozinho sobre o mundo espalhando o amor para que todos se amassem e o amor se tornasse uma lei universal, mas um vento muito forte soprou e algumas pessoas ficaram isentas ou pouco se beneficiaram e infelizmente o amor às vezes enfraquece no coração dessas pessoas.

E por último ela me falou que um dia eu encontraria alguém que havia sido atingido em cheio pelo pó mágico e que esta pessoa seria uma luz na minha vida.

Não falou seu nome, apenas disse que eu saberia quem era quando chegasse à hora e que eu pegaria sua mão e voaríamos juntos.

EI, AINDA TEM PÓ NA SUA CABEÇA!
SEGURE MINHA MÃO, VAMOS VOAR?

Lou Witt

Ah
se todos os dias fossem de flores
seria uma eterna primavera
dentro de mim

Lou Witt

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Bailarina

Nas noites de lua e brumas
me banho de orvalho
e me enfeito de flores
E na dança que a vida toca
feito pluma leve sou bailarina

Lou Witt

domingo, 19 de setembro de 2010

Mãos que se perdem
Línguas que se encontram
Pele
Seda
Salivas
Poros que se grudam
Corpos que se fundem
Estrelas que nascem
No céu dos amantes

Lou Witt

sábado, 18 de setembro de 2010

Florescem ipês
amarelando as ruas
e um girassol no céu
pinta de dourado
os dias de setembro

Lou Witt

domingo, 12 de setembro de 2010


Pedi ao vento
que te levasse meu amor
soprei a ele meu sentimento
Ele saiu de mansinho
e foi espalhando flores
deixando no ar o perfume
da minha saudade

Lou Witt

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Minha irmã tinha um sapo chamado Rodrigo


Um certo dia ele apareceu na garagem de sua casa e ela resolveu adotá-lo.
Durante o dia ninguém o via, escondia-se não se sabe onde, talvez por medo dos predadores.
À noite, exibia-se sempre embaixo de uma lâmpada como se fosse um artista sob a luz de um holofote.
Minha irmã sentia-se orgulhosa de contar às pessoas que tinha um sapo morando em sua garagem, seu mais novo animal de estimação.
Desconfio que na calada da noite com “pés-de-pano” ela levantava sorrateira e escondida do marido, um simples mortal, beijava o sapo, na esperança de ganhar um príncipe.
Mas, um dia Rodrigo sumiu, não se sabe pra onde nem por quê.
Talvez tenha sido morto, quem sabe caiu no mundo, ou na pior das hipóteses, finalmente encontrou sua princesa, foi beijado e transformado para sempre.
E minha irmã só ficou com a lembrança de Rodrigo.

Lou Witt

sábado, 4 de setembro de 2010


Eu quero te fazer uma canção
que fale do brilho dos meus olhos
e do pulsar do meu coração
Eu quero te cantar em versos
e te transformar em poema
ao deslizar dos meus dedos

Lou Witt

sexta-feira, 27 de agosto de 2010


Queria roubar seu pensamento
E como você por um momento
Acreditar que meu amor
Não é assim tão imenso

Lou Witt

Hoje eu ultrapassei
o tênue fio da realidade
e escondi minhas dores na gaveta
E na ponta da caneta
derramei amores
só porque hoje o dia acordou
com cara de felicidade

Lou Witt

sábado, 21 de agosto de 2010


Quando nascer um novo dia
por detrás da cortina do tempo
eu trarei nas mãos violetas
cobertas de beijos
e cantarei uma canção que fale
de sorrisos e cheiro de terra

E quando o perfume das flores
inundar a primavera
eu me cobrirei de pétalas
para que teus olhares
sejam somente meus

Lou Witt

quarta-feira, 18 de agosto de 2010


A névoa que cobre meus pensamentos
tenta esconder o dragão da verdade
que cospe fogo e engole minhas certezas.

Bem ao longe a última estrela cadente
clareia o céu da minha noite
e um luar de sorriso amacia o mundo
só para lembrar que a magia ainda existe.

A água cristalina que desce sobre as pedras da montanha
molha minha face e um frio quase necessário
atravessa a espinha da alma.

Agora se faz noite,
mas quando chegar a aurora
ouvirei o tilintar das salamandras no zunir do vento.

Sentirei o perfume das azaléias que cairão em pétalas
no tapete da existência e me sentirei como se estivesse
nos verões mágicos da ilha
onde o mar deságua lendas e sussurra segredos
desde o canto das sereias
até o revoar das bruxas.

E como fino papel de seda que colorido balança
atravessarei as fronteiras de mim mesma
e aportarei onde o sol é rei
e a esperança trafega livre
em meio aos corações.

Lou Witt

segunda-feira, 9 de agosto de 2010


As palavras dormiram em mim por um longo tempo.
Estavam em gestação.
Hoje elas nascem aos poucos
e quase sempre em horário noturno
quando quase todos dormem.
E é nesse mundo de palavras que eu me perco
e mais me encontro.
 
Lou Witt

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Quase um poema gelado

Descansa a tarde sob um céu de fino gris
E o vento displicente traz a brisa do mar
Fria, diferente de ontem quando o sol era astro e brilhava sobre as peles
Lindos dias de sorrisos e de sal
De coração quente no cair das tardes e no raiar das manhãs
De felicidade


Mas não era disso que eu queria falar e sim desta tarde cinza de abismos gelados
De coração que assola o peito
Que arranha feito gato selvagem
Falaria também da dor que agride o mundo em dias assim
Disto melhor eu nem falar, doeria em mim mais do que dói

E de doer já cansei
A tarde quer ser noite e transformar um pequeno pedaço do universo em breu
E talvez isso me console
A noite escura sempre é melhor do que a tarde cinza
E o amanhecer sempre traz esperanças


Mas por ora só tenho essa tarde que me congela a alma
E um vento que sopra quase uivante querendo passar pela janela
E de mais, até as palavras escondem-se de mim
E eu cato aqui e ali alguma pra poder compor algo que se entenda
Na verdade nem quero que alguém entenda alguma coisa
Se nem mesma eu entendo
E pra que entender se a tarde congelou até meu pensamento?
Se o frio é tanto que a alma treme, pra que entender?


Lou Witt
...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O encantamento dos poetas


Um poema quando é lido
nos dá a feliz ilusão
de que foi feito para nós
As palavras que bailam coloridas
nos sorriem
E ai é que reside
o encantamento dos poetas

(Lou Witt)

o encantamento dos poetas - resposta

as bruxas encantam os sapos;
as princesas: seus príncipes,
as rosas : aos beija-flores,
os amores : meu vício.

o vício de ser o poeta,
aquela que a musa vela e ama,
que sejas a eterna amada,
véu de noiva, sorriso em chamas.

A musa encanta o poeta,
quem dera viver esse sublime
momento de feliz-felicidade
e estar perdido entre os arrupios
e nos seus lábios enrolados
os caracóis da rima querida
o silêncio ! o amor respira
a íra de se ser feliz amado:
pobre beija-flor.

(sergio, beija-flor-poeta)

domingo, 1 de agosto de 2010

Piano

Talvez um dia
eu sente na sombra
de um flamboyant florido
e escreva um livro
Talvez com o passar dos anos
eu compre um piano
e mesmo que meus dedos
nunca tirem dele uma música
passarei as tardes de outono
somente o admirando

Lou Witt


Na madrugada, quando o sono foi embora e o barulho da chuva na janela me chamava em melodia, senti saudades das palavras de um poeta maior.
Peguei seu livro que falava da infância e suas palavras reviradas me levaram de imediato a seu mundo e ler Manoel e sua comunhão com a natureza me remeteram também a minha infância onde a natureza era o que tinha de mais bonito e poético.
E quando amanheceu o dia e a chuva não deixou o sol raiar, foi então que eu dormi, abraçada a Manoel de Barros.

sexta-feira, 30 de julho de 2010


Meu avesso saltou para o lado de fora
o estômago está exposto
e o mal-estar é insuportável
necessito urgente de uma dose de adrenalina
e antiácido para a alma

sábado, 24 de julho de 2010


É preciso estar atento
às pequenas coisas
e não deixar
que as grandes as ofusquem
porque elas muitas vezes
guardam a beleza e a verdade

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Com a palavra meu amigo Juninho:
Jamais tive pretensão e talento para equilibrar as palavras na construção de bons versos, mas costumo registrar os raros lápsos da falta dessa qualidade. No dia 17 de abril de 1998, por uma razão que não recordo, mas que certamente me tocou, registrei o seguinte texto:

Menino de rua

Pés descalços e pele semi nua. Tua casa é a rua.
Teu brinquedo não é bola, é cola.
Tua lágrima quase nunca é vista, quase sempre
estás sozinho.

Sozinho de amor, abrigo, braços, abraços, beijo e carinho.

Na janela do meu carro me chama de “tio”,
me pede uns trocados para ajudar em casa,
ajudar o pai, ajudar a mãe. Que pai? Que mãe ?
Vou embora, te deixo um trocadinho,
no meio da rua, no meio do caminho.
Pelo retrovisor, vejo a encruzilhada da vida.
Vida que só te olha quando entorpecido,
sonha outra vida, em um banco de praça
ou no chão, confortavelmente coberto
com um pedaço de papelão.

Menino de rua, a falta de sorte é tua, mas a culpa é minha.

Menino de rua não quer cola.
Quer amor, abrigo, braços, abraços,
beijo, carinho, escola e BOLA !

(Miguel Vieira Jr)

Minha maior pretensão nesse caso, é que após doze anos a realidade fosse diferente, que restasse apenas um texto velho e ultrapassado. Infelizmente as palavras que raramente encontro, são as mesmas que terei que dividir com meu filho na tentativa de explicar que muitas vezes ilustrações e textos, são reflexos de uma vida real. No entanto, mais que dividir argumentos, espero ser capaz de demontrar que é preciso redesenhar e reescrever a realidade.
 

O meu amor é como um pássaro que voa
que chega manso e pousa em tua face
e percorre teus sentidos delicado e terno

O meu amor é livre como o pensamento
que atravessa muralhas e quebra fronteiras
leve como o vento na imensidão do espaço

O meu amor é como uma pluma que flutua

domingo, 18 de julho de 2010


Desejos mornos
que nascem de dia
e tornam-se fogo
quando chega a noite
E basta um toque
de tua pele na minha
para que minha flor
desabroche


Sentiu a areia entre os dedos
e a água a molhar os pés
Um leve vento que vinha do sul
balançou seus cabelos
e o cheiro do mar entrou
docemente em suas narinas
Um sirizinho enfiou-se num buraco
e uma gaivota mergulhou
e trouxe no bico um peixe
Ouviu o barulho das ondas
quebrando na praia
e sentiu a espuma branca
beijando suas pernas
num ritual de ir e vir
de bater e deixar seu sal
Ao longe um barco e uma vela
e sonhos que voaram
e foram além do infinito
E no peito um sentimento aflorou
e foi apertando como braços
e invadindo como posseiro
incomensurável
pungente
infinitamente
saudade!!!


Brincamos assim
como um quebra-cabeças
peça por peça
num encaixe perfeito

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Inverno que dói

Quando o inverno chega
e o frio me entra pelos poros
minha alma necessita de calor extra.
Nunca me dei bem com esse frio que maltrata
e conviver com ele é uma batalha que travo todo ano.
Fecho os olhos, e às vezes nem disso preciso
e lembro dos dias ensolarados,
da brisa do mar soprando em meu rosto
como um beijo de Deus
e das ondas lambendo meu corpo
como a melhor carícia de um amante.
E vivo, inquieta à espera
de que esses dias voltem,
que esse frio vá para outras terras
e me deixe aqui,
vivendo meus abençoados dias de verão.

Não existem fórmulas
e a fantasia prevalece
neste mundo de ilusões
onde a emoção
comanda a alma
e a liberdade de sonhar
é absoluta

segunda-feira, 12 de julho de 2010


Poema dedicado ao poeta das palavras mágicas, Alvaro Bastos

Poeta menino

Eu vejo um menino
que sorri faceiro
que brinca e que corre
atrás de uma pipa.

Eu vejo um poeta
que faz lindos versos
que guarda palavras
escondidas nos bolsos.

Eu vejo dois olhos
de pura magia
que dizem que o mundo
é feito de sonhos.

Eu vejo o melhor
que existe no homem
e o mais puro
que sobrou do menino.

sábado, 10 de julho de 2010


A lua de prata
no céu se esconde
As estrelas pingam
lágrimas de saudade
A noite grita
dentro de mim o teu nome

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Paixão Explícita

Gato travesso que pula no muro
me diz bem ligeiro
de quantas matizes é feito teu pêlo?
De quantas estrelas
roubaram o brilho
e agora cintilam pra sempre
em teus lindos olhos?
Me diz por que em noites
de lua tão cheia
tu foges pra longe
e não mais te encontro
oh gato matreiro?
Gato faceiro
de língua que banha
de unhas que arranha
não vivo sem ti
e embora eu bem saiba
da tua esperteza
te cerco de mimos
pois quando ronronas
quietinho na cama
esqueço tuas manhas
e tuas costumeiras trapaças
e fico encantada a te contemplar
oh gato manhoso.

saudade é bichinho voraz
que rói o peito da gente
e sem a nossa permissão
vai comendo de mansinho
e quando percebemos
nosso coração já ta todo furadinho
igualzinho queijo suíço!

Ai, como dói!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

vem com tuas mãos
no mais louco desejo
tua boca no meu beijo
teu corpo grudado ao meu

vem e me faz insana
profana
louca pelo corpo teu
que me chama e me convida
que me atiça
e me provoca
que me inflama
e me faz querer
tudo o que é teu

vem e me diz
coisas no ouvido
geme de prazer comigo
e me beija com paixão
até que meu corpo seja teu
e o teu se una ao meu
e nossos corações pulsem
na mesma cadência
tão perto
tão juntos
tão únicos

vem e me afaga
me lambe
me morde
me aperta
me vira do avesso
me faz delirar
e fundida em teu corpo
amar
e gozar

vem sem medo
e sem reservas
vem com braços
mãos
línguas e pernas
com corpo quente
sedento
e pronto para amar

vem e me diz
coisas doces
apaixonadas
e indecentes
e deixe que eu diga
bem junto ao teu ouvido
que sou tua
que te quero
te desejo
e te amo

domingo, 4 de julho de 2010


Ao toque de seus dedos
lembrei dos girassóis
a invadir o campo
de meu corpo
e ao amar você
sob um céu de estrelas
no meu chão
eu vi nascerem nuvens


A lua de prata
no céu se esconde
as estrelas pingam
lágrimas de saudade
A noite grita
dentro de mim o teu nome


Queria entender os silêncios
Queria permanecer em silêncio
Mas meu coração é teimoso
E sempre grita

sexta-feira, 2 de julho de 2010


Quem colherá o perfume dos lírios
e as cores da azaléia?

Quem mostrará o horizonte de arco-íris
e o púrpuro do céu ao entardecer?

Quem por acaso trará a semente da nova esperança
e plantará um futuro promitente?

Quem me dirá que após a curva
o vento soprará as folhas secas
e me mostrará um chão de estrelas?

Quem no pulsante do infinito azul
me abrirá suas asas
e me esculpirá em texturas e desejos?

E é quando o vento sopra
em meu ouvido seus segredos
que fico sabendo onde faz morada
teu pensamento

quinta-feira, 1 de julho de 2010


Poema em parceria com meu querido amigo Angelo - novembro/2008


Um papo com Hercílio...

Hercílio, nos dê uma Luz
A praia é Mole
Mas vida tem sido muito dura
Com aqueles que não têm nada de "manés"
Somente manezinhos
Avisa lá pra Joaquina
Que ainda tem muita onda para surfar
Mas não precisa de tanta água
A ilha já se formou, Hercílio
Da magia que é a terra
Da beleza das modelos
Se melhorar, estraga
Já está bom demais, não precisa piorar

"Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair mas parar..."

A súplica, outrora cearense,
Agora é catarinense
Talvez do mundo inteiro
E muito deste mineiro
Hercílio, faça a ponte
Devolva-nos um belo horizonte
Faça o molhado secar...

(Angelo Portilho)

Minha resposta

Se a chuva parasse agora
e o sol desse ares de graça
secando o solo e restabelecendo o chão
em um barco eu sairia mar afora
com as ondas batendo na proa
e o vento desmanchando meus cabelos.

Se as águas fossem embora
e tudo voltasse ao normal
eu iria até a costa da Lagoa
saltaria do mais alto trapiche
e mergulharia o mais fundo que pudesse
até ficar completamente sem ar
voltaria à superfície
e dividiria com as gaivotas
o ar santificado da encosta.

Se o vento levasse embora
todas as nuvens carregadas de chuva
eu correria na avenida das rendeiras
e faria da Lagoa da Conceição
meu lugar mais que sagrado
e na montanha mais alta eu subiria
só pra poder mandar pelos ares
uma mensagem a um poeta
que divide comigo seus versos
e nos meus dias de chuva
comigo ele compartilha
os raios de seu mineiro sol.

(Lou Witt)

sábado, 26 de junho de 2010

Lua dos amantes

Quando olho para o céu e vejo a lua cheia, redonda feita bolacha maria, daquelas que minha mãe comprava quando eu era criança, só que com mais brilho e muito, muito mais esplendor, fico imaginando como sou ínfima e miúda.

Neste imenso universo de estrelas e cometas, de mundos que nem em sonhos ousamos conhecer, a lua majestosa, se impõe como rainha, e quando é cheia então nem se fala, o céu é todo dela, tudo ao seu redor é coadjuvante.

Não é de se estranhar que lobos uivem, homens se transmutem em lobisomens, fadas voem com seus pozinhos encantados, bruxas confabulem com seus caldeirões de poções mágicas, amantes se entreguem na mais lasciva das paixões.
Tudo é possível quando no céu tem pendurada, uma esplendorosa lua cheia!

E quando Armstrong pisou na lua e flutuando na imensidão daquelas crateras disse: “Este é um pequeno passo para um homem, mas um salto gigante para a humanidade”. Será que por ventura, daqui da terra, avistávamos no céu uma hipnotizante lua cheia?

sábado, 19 de junho de 2010

Incertezas

Minhas certezas são nada e quando estou assim, pensando no amanhã (e sei que não devo) tudo de esvai na bruma densa da tarde.
Os barcos vão e voltam e eu fico sempre aqui a ver navios.
Quando a tormenta me abate o céu negro invade meu ser e me traz incertezas absurdas que me arrancam medos.
Ao longe no horizonte eu vejo uma cor que reluz e alcança o mar e fico extasiada com seu brilho, mas novamente a vã certeza se desfaz e os passos recuam sem ao menos saber o por quê.
Sei das lutas que devo travar, sei do caos, dos espinhos, das flores.
As flores. Que dizer das flores quando desabrocham?
Ontem feri minhas mãos com os espinhos de uma linda flor e me perdi em tanto perfume.
Hoje junto restos de pétalas e de mim.
Amanhã talvez plantarei sementes, mas nada que não possa colher ou guardar.
Guardarei alguns sonhos (nunca consigo me desfazer de todos) e quando o dia nascer radiante dentro de mim, tirarei o pó da alma e espalharei os sonhos diante de meus pés.
Talvez a certeza volte e me reflita no espelho com as cores que ontem se apagaram e me deixaram náufraga.
Talvez eu escancare um sorriso sem me importar se outros são felizes ou não.
Mas por ora o dia caminha lento e sem previsões e tudo se resume em um polido e singelo talvez.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Que sentimento estranho é esse que me domina?

Será que a vida é feita de incertezas?

Por que o tempo passa tão depressa e exige tanto?

Por vezes minha estrada é escura e quando vejo a luz quase fico cega

Não quero viver na corda bamba sem uma sombrinha pra me equilibrar

Não quero cair na lona e sentir que o chão é perto porque quero asas e voar

Não me tirem os sonhos

Não me mostre o fim

Não quero ponto final.

Quero reticências...

Não quero o deserto nem mesmo o oásis

Quero que a vida jorre em todos os meus dias

Quero que o sangue ferva em todas as minhas veias

Quero um coração

Mesmo que doa

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Voo no vento

Naquela manhã acordou com uma vontade estranha de ganhar o mundo.

Queria ver as borboletas de outros jardins e os pássaros de outros céus.

Caminhou entre as folhas secas de outono sem olhar para trás e a cada passo que dava o desejo aumentava dentro de seu peito.

Abandonaria seu solitário mundo e buscaria entre o tempo e o espaço um lugar onde as lágrimas fossem de açúcar e o pensar fosse uma fina e transparente seda.

Queria que o orvalho da manhã tocasse em sua pele e a brisa mansa e serena lhe beijasse como um amante.

Olhou a vida como se fosse um algodão doce e delicadamente provou o doce sabor da plenitude.

E o vento soprou como em rebeldia desmanchando seu cabelo e trazendo areia fina para seus olhos.

Travou-se então uma batalha entre a vida e o desconhecido escuro travestido de medo.

Queria desesperadamente conhecer o mundo que havia depois da esquina e uma voz doce lhe dizia que para seguir em frente teria que se despir de tudo o que aprendera até então e assim ela fez.

Sentia a pele queimar e uma dor insuportável transpassou seu peito, mas sabia que para atravessar a fronteira do previsível e costumeiro teria que sentir o fio da navalha lhe tirando a couraça dos dias iguais.

Um beija-flor pousou em seu ombro num bater de asas tão rápido que mal ela podia perceber seu voo e um cheiro de alfazema transformou o ar o que a fez lembrar de um ritual de acasalamento.

Levantou as mãos e segurou no rabo do vento que saiu numa louca disparada levando consigo uma alma nua e um sorriso escancarado.